Jussara Hoffmann e a Avaliação Mediadora: uma nova forma de acompanhar a aprendizagem.
A avaliação é uma das práticas mais importantes do processo educativo. Por meio dela, o professor acompanha o desenvolvimento dos estudantes, identifica dificuldades, reorganiza o planejamento e cria novas oportunidades de aprendizagem.
Durante muito tempo, porém, avaliar foi entendido principalmente como aplicar provas, atribuir notas e classificar os alunos entre aprovados e reprovados. A educadora brasileira Jussara Hoffmann contribuiu significativamente para transformar essa concepção, defendendo uma avaliação contínua, reflexiva, investigativa e comprometida com o desenvolvimento de cada estudante.
Sua proposta, conhecida como avaliação mediadora, tornou-se uma importante referência na formação de professores e na organização das práticas avaliativas nas escolas brasileiras.
Quem é Jussara Hoffmann?
Jussara Maria Lerch Hoffmann é uma educadora, pesquisadora, escritora e especialista brasileira na área da avaliação educacional. É graduada em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e mestre em Educação, com estudos voltados para a avaliação educacional, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Atuou durante vários anos na Educação Básica e no Ensino Superior, tendo sido professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Também desenvolveu trabalhos como conferencista, consultora educacional e formadora de professores.
Ao longo de sua trajetória, Hoffmann dedicou-se ao estudo das práticas avaliativas e à construção de uma proposta capaz de superar o caráter classificatório e excludente da avaliação tradicional. Entre suas obras mais conhecidas estão Avaliação: mito & desafio, Avaliação mediadora, Avaliar para promover e O jogo do contrário em avaliação.
Seu trabalho ganhou destaque por apresentar reflexões teóricas acompanhadas de situações concretas vividas em escolas, ajudando professores a compreenderem a avaliação como parte inseparável do ensino e da aprendizagem.
A crítica à avaliação classificatória:
Na avaliação tradicional, o desempenho do aluno costuma ser resumido por meio de notas, conceitos, provas e resultados finais. Nesse modelo, o principal objetivo é verificar quanto o estudante conseguiu memorizar em determinado período.
Essa prática pode transformar a avaliação em um instrumento de seleção, controle ou punição. O erro passa a ser visto apenas como falta de conhecimento, e não como uma importante fonte de informação sobre o processo de aprendizagem.
Jussara Hoffmann critica essa visão porque ela pode desconsiderar o percurso realizado pelo estudante, suas hipóteses, seus avanços e as diferentes maneiras pelas quais cada pessoa aprende. A autora propõe que a avaliação deixe de ser um momento isolado e passe a acompanhar todo o processo educativo.
Em sua perspectiva, avaliar não significa apenas emitir um julgamento sobre o aluno. Significa observar, interpretar, compreender e tomar decisões pedagógicas que possam ajudá-lo a continuar aprendendo.
O que é avaliação mediadora?
A avaliação mediadora é uma prática baseada no acompanhamento contínuo da aprendizagem. Nessa concepção, o professor observa as manifestações dos alunos, analisa suas estratégias, interpreta seus erros e oferece intervenções adequadas às necessidades identificadas.
A avaliação deixa de ser uma atividade realizada somente no final de uma unidade ou período escolar. Ela acontece diariamente, durante as conversas, brincadeiras, produções escritas, pesquisas, trabalhos, leituras, resolução de problemas e demais experiências propostas em sala de aula.
Hoffmann define a avaliação mediadora como uma relação dialógica, na qual o professor provoca, questiona e encoraja o estudante a reorganizar seus conhecimentos. O objetivo não é simplesmente constatar o que ele ainda não sabe, mas criar condições para que avance.
Nesse processo, professor e aluno participam ativamente. O estudante é reconhecido como sujeito da aprendizagem, enquanto o educador assume o papel de observador, investigador e mediador.
Princípios da avaliação mediadora:
A proposta de Jussara Hoffmann está fundamentada em alguns princípios essenciais:
●Acompanhamento contínuo
A aprendizagem não acontece somente no dia da prova. Por isso, a avaliação deve estar presente em todas as etapas do trabalho pedagógico.
O professor acompanha o desenvolvimento do aluno ao longo do tempo, procurando compreender como ele pensa, quais conhecimentos já construiu e de que tipo de ajuda necessita.
●Respeito às diferenças
Cada estudante possui um ritmo, uma história e uma maneira própria de aprender. A avaliação mediadora não compara os alunos entre si. Ela considera o percurso individual e valoriza os avanços de cada um.
Isso não significa diminuir as expectativas de aprendizagem, mas oferecer diferentes estratégias para que todos tenham condições de progredir.
●Valorização do diálogo
O diálogo é fundamental para compreender o pensamento do estudante. Ao fazer perguntas, ouvir explicações e solicitar que o aluno justifique suas respostas, o professor obtém informações que dificilmente seriam percebidas apenas por meio de uma prova.
A conversa permite conhecer as hipóteses construídas pelo aluno e planejar intervenções mais adequadas.
●Interpretação do erro
Na avaliação mediadora, o erro não é tratado simplesmente como fracasso. Ele pode revelar o modo como o estudante organizou o pensamento e indicar quais conhecimentos ainda precisam ser desenvolvidos.
O professor analisa o erro para compreender sua origem. Depois, propõe novas situações, perguntas ou atividades que ajudem o estudante a revisar suas ideias.
●Intervenção pedagógica
Observar e registrar não são suficientes. As informações obtidas durante a avaliação precisam orientar as ações do professor.
Quando identifica uma dificuldade, o educador reorganiza o planejamento, retoma conteúdos, apresenta novos exemplos, modifica os recursos utilizados ou oferece atendimento mais individualizado.
Avaliação a serviço da aprendizagem:
O principal objetivo da avaliação deve ser promover a aprendizagem. Os resultados não servem apenas para registrar notas, mas para orientar decisões pedagógicas.
Por isso, ensino, aprendizagem e avaliação formam um processo integrado.
O papel do professor:
Na proposta de Jussara Hoffmann, o professor não atua como um simples examinador que verifica respostas certas e erradas. Ele assume a função de mediador da aprendizagem.
Cabe ao educador observar cuidadosamente as produções dos alunos, formular perguntas, criar desafios e oferecer oportunidades para que revejam suas ideias.
Para exercer essa função, o professor precisa conhecer seus estudantes e registrar informações sobre o desenvolvimento de cada um. Esses registros podem ser feitos por meio de relatórios, fichas de acompanhamento, portfólios, anotações, fotografias, gravações e coleções de atividades.
Os registros permitem acompanhar mudanças, comparar produções realizadas em diferentes momentos e identificar avanços que não seriam percebidos apenas por meio de notas.
O professor também deve refletir sobre sua própria prática. Quando muitos alunos apresentam a mesma dificuldade, por exemplo, é importante analisar se as estratégias utilizadas foram adequadas e quais mudanças podem ser feitas no planejamento.
O papel do estudante:
O aluno também precisa participar do processo avaliativo. Ele deve ter oportunidades de compreender os objetivos das atividades, reconhecer suas conquistas e identificar os aspectos que ainda precisa desenvolver.
A autoavaliação pode contribuir para essa participação. Por meio dela, o estudante aprende a refletir sobre sua dedicação, suas dificuldades, suas estratégias e seus avanços.
O professor pode propor perguntas como:
●O que aprendi nesta atividade?
●Qual foi a parte mais difícil?
●Como resolvi o problema?
●Em que aspecto posso melhorar?
●De que ajuda ainda preciso?
Essas reflexões favorecem o desenvolvimento da autonomia, da responsabilidade e da consciência sobre o próprio processo de aprendizagem.
O planejamento na avaliação mediadora:
A avaliação mediadora está diretamente relacionada ao planejamento pedagógico. O professor planeja as atividades, observa como os estudantes respondem a elas e utiliza as informações obtidas para reorganizar as ações seguintes.
O planejamento, portanto, não deve ser rígido ou definitivo. Ele precisa estar aberto às necessidades que surgem durante o processo.
Quando os alunos demonstram que já dominam determinado conhecimento, o professor pode propor desafios mais complexos. Quando apresentam dificuldades, é necessário retomar o conteúdo por meio de outras estratégias.
Dessa forma, a avaliação ajuda a responder perguntas importantes:
●O que os alunos já sabem?
●Quais dificuldades estão enfrentando?
●Que avanços realizaram?
●Quais estratégias favoreceram a aprendizagem?
●O que precisa ser retomado?
●Que novos desafios podem ser apresentados?
Instrumentos de avaliação:
A avaliação mediadora não elimina provas ou atividades escritas. O que muda é a maneira como os resultados são interpretados e utilizados.
Nenhum instrumento isolado é capaz de revelar toda a aprendizagem do estudante. Por isso, o professor deve utilizar diferentes formas de acompanhamento, como:
●observação diária;
●produções individuais e coletivas;
●atividades orais e escritas;
●portfólios;
●pesquisas;
●projetos;
●rodas de conversa;
●relatórios;
●registros do professor;
●autoavaliação;
resolução de situações-problema;
●apresentações e seminários.
A diversidade de instrumentos permite observar diferentes habilidades e oferece uma visão mais completa do desenvolvimento dos estudantes.
O portfólio como recurso avaliativo:
O portfólio é um recurso importante para a avaliação mediadora. Ele reúne produções realizadas pelo aluno ao longo de determinado período e permite acompanhar seu percurso de aprendizagem.
Mais do que uma pasta de atividades, o portfólio deve apresentar evidências de avanços, dificuldades, revisões e novas descobertas.
O professor pode selecionar, junto com o estudante, produções significativas e conversar sobre as mudanças observadas entre uma atividade e outra. Assim, o portfólio torna-se um instrumento de reflexão e não apenas de armazenamento.
Avaliação mediadora na Educação Infantil:
Na Educação Infantil, a avaliação deve ocorrer principalmente por meio da observação e do registro do desenvolvimento das crianças.
Não é adequado utilizar provas, notas ou mecanismos de promoção e retenção. O professor acompanha as brincadeiras, interações, falas, desenhos, movimentos, descobertas e formas de participação.
Jussara Hoffmann destaca que os registros devem contribuir para o planejamento de novas experiências. Eles não podem servir para rotular, comparar ou estabelecer padrões rígidos de desenvolvimento.
Cada criança precisa ser compreendida em sua singularidade. Por isso, os relatórios devem apresentar informações concretas sobre suas conquistas, interesses, formas de expressão e necessidades.
Avaliação mediadora no Ensino Fundamental
No Ensino Fundamental, a avaliação mediadora pode ser aplicada em todos os componentes curriculares.
Na alfabetização, por exemplo, o professor pode analisar as hipóteses de escrita dos alunos, registrar seus avanços e propor intervenções específicas.
Na Matemática, pode observar os procedimentos usados na resolução de problemas, mesmo quando a resposta final não estiver correta. O caminho realizado pelo estudante oferece informações importantes sobre seu raciocínio.
Em Ciências, História e Geografia, pesquisas, debates, experiências, mapas, textos e apresentações podem revelar diferentes aprendizagens.
O essencial é que as informações obtidas sejam utilizadas para orientar o ensino e não apenas para produzir uma nota.
A importância do feedback:
O feedback é uma parte essencial da avaliação mediadora. Ele oferece ao estudante informações sobre o que conseguiu realizar e sobre os aspectos que ainda precisa desenvolver.
Comentários como “errado”, “incompleto” ou “precisa melhorar” fornecem poucas orientações. Um feedback formativo deve ser claro e mostrar caminhos possíveis.
O professor pode indicar:
●qual aspecto foi realizado adequadamente;
●onde está a dificuldade;
●o que precisa ser revisto;
●quais estratégias podem ser utilizadas;
●qual será o próximo desafio.
O feedback deve incentivar o aluno a continuar aprendendo. Por isso, precisa ser respeitoso, específico e adequado à sua idade.
Avaliação e inclusão:
A avaliação mediadora também contribui para uma educação mais inclusiva. Ao considerar os diferentes percursos de aprendizagem, ela evita que um único instrumento seja utilizado como medida absoluta do desempenho de todos.
Estudantes com deficiência, transtornos de aprendizagem ou outras necessidades educacionais podem demonstrar seus conhecimentos de maneiras distintas.
Isso exige flexibilidade na escolha dos instrumentos, na organização do tempo, na apresentação das atividades e nas formas de registro.
Flexibilizar não significa retirar os direitos de aprendizagem. Significa garantir condições mais justas para que cada estudante participe e demonstre o que sabe.
Contribuições de Jussara Hoffmann para a educação:
As ideias de Jussara Hoffmann ajudaram muitos educadores a repensarem o sentido da avaliação escolar. Sua proposta mostrou que avaliar não deve ser um ato separado do ensino, mas um processo permanente de observação, interpretação e intervenção.
Entre suas principais contribuições, destacam-se:
●a crítica à avaliação classificatória;
●a valorização do acompanhamento contínuo;
●a compreensão do erro como parte da aprendizagem;
●a defesa do diálogo entre professor e aluno;
●o reconhecimento das diferenças individuais;
●a utilização dos registros para orientar o planejamento;
●a participação do estudante no processo avaliativo;
●a avaliação entendida como promoção da aprendizagem.
Suas obras continuam sendo estudadas em cursos de Pedagogia, licenciaturas, concursos públicos e programas de formação continuada.
Como aplicar a avaliação mediadora na prática?
A mudança da avaliação tradicional para a avaliação mediadora não acontece apenas com a substituição das provas por outras atividades. É necessário transformar a própria concepção de ensino e aprendizagem.
O professor pode iniciar esse processo estabelecendo objetivos claros, observando os estudantes em diferentes situações e registrando evidências significativas.
Também é importante oferecer oportunidades de revisão. Quando uma atividade apresenta dificuldades, o trabalho não deve terminar com a correção. O estudante precisa compreender o que ocorreu e ter a possibilidade de realizar uma nova tentativa.
Outra atitude importante é promover momentos de diálogo individual e coletivo. As perguntas feitas pelo professor ajudam os alunos a explicar seus pensamentos e a perceber diferentes possibilidades de resolução.
A prática avaliativa deve responder não apenas à pergunta “o aluno aprendeu?”, mas também:
●Como ele está aprendendo?
●Quais estratégias utiliza?
●O que está dificultando seu avanço?
●Que intervenção pode ajudá-lo?
●O que o professor precisa modificar?
Desafios para a escola:
A implementação de uma avaliação mediadora exige mudanças que envolvem toda a comunidade escolar.
O grande número de alunos por turma, a falta de tempo para os registros, a pressão por notas e resultados e a permanência de práticas tradicionais podem dificultar o acompanhamento individualizado.
Por isso, a transformação da avaliação não deve depender apenas do esforço isolado de cada professor. A escola precisa criar espaços de estudo, planejamento coletivo e análise das aprendizagens.
A equipe pedagógica também deve dialogar com as famílias, explicando que avaliar não significa deixar de acompanhar o desempenho ou abandonar critérios. Ao contrário, significa obter informações mais completas e utilizar os resultados de maneira pedagógica.
Conclusão:
Jussara Hoffmann contribuiu de maneira significativa para a renovação do pensamento sobre a avaliação educacional no Brasil.
Sua proposta de avaliação mediadora rompe com a ideia de que avaliar é apenas medir, testar, classificar ou atribuir notas. Avaliar significa acompanhar o estudante, compreender seu processo de aprendizagem e agir para ajudá-lo a avançar.
Nessa perspectiva, o erro deixa de ser motivo de punição e passa a ser uma oportunidade de investigação. A nota deixa de ser a finalidade principal, e o desenvolvimento do estudante assume o centro do trabalho pedagógico.
A avaliação mediadora exige observação, diálogo, registro, planejamento e compromisso com a aprendizagem de todos. Mais do que uma técnica, ela representa uma postura educativa baseada no respeito, na confiança e na responsabilidade compartilhada.
Ao colocar a avaliação a serviço da aprendizagem, a escola torna-se mais acolhedora, democrática e capaz de reconhecer as possibilidades de cada estudante.
Referências bibliográficas:
BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018.
ESTEBAN, Maria Teresa. Entrevista com Jussara Hoffmann. Revista Teias, Rio de Janeiro, v. 19, n. 54, 2018.
HOFFMANN, Jussara Maria Lerch. Avaliação: mito & desafio: uma perspectiva construtivista. 35. ed. Porto Alegre: Mediação, 2005.
HOFFMANN, Jussara Maria Lerch. Avaliação mediadora: uma prática em construção da pré-escola à universidade. 35. ed. Porto Alegre: Mediação, 2019.
HOFFMANN, Jussara. Avaliar para promover: as setas do caminho. Porto Alegre: Mediação, 2001.
HOFFMANN, Jussara. O jogo do contrário em avaliação. Porto Alegre: Mediação, 2005.
HOFFMANN, Jussara. Avaliação mediadora: uma relação dialógica na construção do conhecimento. São Paulo: FDE, 1994.
LUCKESI, Cipriano Carlos. Avaliação da aprendizagem escolar: estudos e proposições. São Paulo: Cortez, 2011.

Nenhum comentário:
Postar um comentário